quinta-feira, 18 de junho de 2020

Dias de Flora


Flora todo dia levanta pensando em fazer o melhor. As vezes, antes mesmo de fechar os olhos para dormir pensa: amanhã o dia será diferente. Mas as vezes, mesmo antes de voltar a abri-los pensa: mais um dia…
Flora sempre acredita no amanhã, mas o hoje é sempre difícil de encarar.
As vezes dura um pouco mais. Abre os olhos, levanta da cama, abre a cortina e diz: esse é o dia. Mas logo depois se decepciona consigo mesma, ao tentar ler qualquer coisa que no fim não compreende.
Amanhã será diferente!” ela pensa consigo mesma, “amanhã mudaremos essa rotina!”. Mas o amanhã parece o hoje de ontem.
As vezes pensar dói. Se concentrar é um exercício de grande esforço. Quando menos espera já se perdeu, e o dia já passou e a hora a enganou.
Flora decide “assim não dá mais!”, mas também não encontra um caminho. Porquê sua mente parece tão confusa e distante?! Ela nunca soube entender, nem mesmo mudar.
O jeito mesmo é me conformar...” pensa ela muitas vezes vencida pelo cansaço, “amanhã é outro dia, e o que não consegui fazer hoje, farei amanhã”. E assim continua.
Dia após dia, Flora tenta vencer a si mesma, a sua mente, aprimorar o dia, implementar, não pensar só agir. Flora já tentou muitas e muitas coisas.
Flora nunca desistiu.
Flora nunca irá desistir de si mesma.

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Lentes do amor


 Tenho compreendido que tudo que nos afasta do amor nos mata um pouco mais a cada dia. E vejo hoje três coisas principais que nos afastam do amor, são elas o medo, a vergonha e a culpa. Penso que todo esse arsenal nos afasta do amor como uma armadura protege o guerreiro em uma batalha. Nessa batalha vejo que o mais temido golpe seja ser vulnerável diante dos outros, então cada pessoa em nossa vida se torna um inimigo ferrenho.
Esse arsenal de guerra nasce no âmbito do relacionamento familiar, posso dizer que aprendemos na infância a nos munirmos contra o outro em uma tentativa de autopreservação.
O amor nos despe dessas coisas, estar nu no mundo perece aterrorizante, mas não foi assim que viemos parar nele?! Completamente nus, sem defesas, vulneráveis...e mesmo assim não sobrevivemos?! Bem, eu tenho aprendido muito com o amor, tenho aprendido a deixar de lado minhas armas de defesa e agir mesmo sentindo medo, vergonha ou culpa. Me libertar dessa armadura tem me deixado leve pra que outros se aproximem. E veja bem, minha nudes faz outros se despirem também!!!
Viver em amor me ensinou que estar vulnerável me aproxima dos outros, e mais do que isso me faz olhar o outro com mais compaixão e verdade. Enxergo hoje que todos somos tão iguais que não há porque se manter tão armado assim. Ver em mim fraquezas por detrás de toda aquela parafernalha de equipamentos defensivos, me fez enxergar o outro nu mesmo armado contra mim. Essa é a maior das belezas do amor, ele muda o nosso olhar sobre as coisas, nos dá uma nova lente para enxergar o outro. Então vendo que a ação do outro parte apenas de um desejo de autodefesa posso perdoá-lo, não sinto-me ofendido e nem rejeitado por ele, ao contrário sinto o desejo de acolhê-lho e mostrar-lhe “Ei estou nu, não precisa se armar contra mim!”, sim isso é vulnerabilidade extrema e isso também não é atestado certo de que o outro se sentirá seguro para se desarmar, mas aí está a beleza do amor, ela parte de si própria e não como uma resposta a um comportamento determinado. O amor age por si mesmo, quem enxergar através das lentes do amor só consegue mesmo amar.

domingo, 11 de março de 2018

Uma cena ultrajante diante da vida real

Os filmes são interessantes, trazem uma leve insatisfação dos nossos prazeres diários com o seu irrealismo perfeito.
Por exemplo, naquela cena ideal em que o personagem está diante de uma esplêndida sobremesa, e com um pequeno garfo belisca um pedaço do doce e coloca-o saborosamente dentro da boca, mastigando aquele apetitoso e minusculo pedaço como se fizesse encher sua boca toda. Não bastando, ainda tem uma conversa instigante com um segundo personagem, sem perder a saborosidade de sua garfadinha, sem cuspi-lo em seu ouvinte ou se importar com que ele veja o pedaço em sua boca enquanto fala. Dando continuidade ao seu ato irreverente, aquele pequeníssimo pedaço dura por quase toda a conversa, e por fim o excelentíssimo doce é deixado para trás como se já tivesse satisfeito o seu apreciador. Uma cena ultrajante diante da vida real.

domingo, 21 de maio de 2017

A menina e o vento

Na pressa do dia a dia ela se apaixonou pelo tempo. Na correria do seu passo ela sentiu o coração pulsar na planta dos seus pés enquanto eles pisavam firmes no chão. Uma brisa pesada passou, ondulando os seus cabelos e refrescando sua nuca. Ela olhou para o céu e viu as nuvens cinzas carregadas de chuva. Um sorriso surgiu espontâneamente em seus lábios, e vários outros sorrisos saltitaram dentro do seu corpo. Ela sentiu o cheiro da grama com a chegada da chuva. Ela saboreou o vento que entrou pelo seu sorriso. Ela sentiu reciprocidade no sentimento, e o tempo também se apaixonou por ela.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Paladar

Os sabores azedos as vezes agradam o paladar,  mais pelo prazer da surpresa do que pelo sabor em si. Por isso experimentar, por exemplo,  um alimento ou chá após escovar os dentes pode mostrar-Se um grandessíssimo modo de obter surpresas. Podem ser agradáveis, mas no início sempre incomodam. Também podem ser somente desagradáveis mesmo. Há quem prefira arriscar em sabores, já outros em paixões. No fim, o que os difere é o tempo que a surpresa do sabor dura...e suas consequências.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

A ilusão do erro

Quão apaixonantes são os caminhos que nos fazem errar. Quão certos se mostram no momento da ansiedade. Quão reluzentes quando exaltam nosso ego. Quão inquestionáveis quando depreciam o que quer que seja. Quão grandes quando comparados ao pó da poeira. São ilusão no meio da confusão do pensamento, inclusive alimento para este eles são. Quão apaixonantes são os erros quando eles, sem querer, nos afastam de quem somos.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Mil Palavras

Chegou o momento que eu aprendi que o silêncio fala mais que mil palavras. Sim, foi e está sendo difícil, mas creio que a dificuldade faça parte do amadurecimento interior. Quantas coisas eu tenho vontade de dizer, mas que as palavras são incapazes de traduzir, até  porque um sentimento não se traduz em palavras. Os atos, por vezes, dizem muito mais, porém também temos que saber e entender que nem sempre vamos poder fazê-lo, esse é o momento em que o silêncio pode falar por si. No início ele pode parecer uma tortura ou um ato de egoísmo ou covardia, mas acredite é preciso ter muito mais coragem para calar, visto que no silêncio as intenções e palavras ficam subentendidas dando margem a qualquer tipo de interpretação aos desatenciosos. Por que, como eu disse no início,  o silêncio fala mais que mil palavras, e até para fazê-lo precisasse saber precisamente sua intenção, exprimindo sua essência ao outro. Mas sem devanear muito, o silêncio não é, em  absoluto, um ato de covardia, mas sim de resguardo tanto de si quanto do outro, o que prova ainda mais a sinceridade do sentimento. Por fim, o silêncio nada mais é que um ato maduro da alma, que deixa de ansiar deliberadamente evitando ferir-Se e ferir.